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O consórcio virou a nova porta de entrada do imóvel — e cresce mais rápido que o financiamento

O dinheiro de consórcios que efetivamente comprou imóveis no Brasil saltou de cerca de R$ 7 bilhões em 2015 para mais de R$ 30 bilhões em 2025. Em Curitiba, ainda é uma fatia pequena do mercado, mas é a que mais cresce — e ganha espaço justamente enquanto o financiamento bancário perde fôlego

O consórcio virou a nova porta de entrada do imóvel — e cresce mais rápido que o financiamento
Avenida República Argentina, no Água Verde. Foto: Tami Taketani/Plural
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Comprar imóvel sem entrar num banco, sem pagar juros e sem comprovar renda de imediato deixou de ser exceção. O consórcio, modelo em que um grupo de pessoas se cota mensalmente e cada uma é contemplada ao longo do tempo, vive a maior expansão de sua história no país — e o tijolo é o destino preferido desse dinheiro.

Os números nacionais da ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios) mostram a escalada. O valor de créditos de consórcio que efetivamente foi usado para comprar imóveis passou de aproximadamente R$ 7 bilhões em 2015 para R$ 18,8 bilhões em 2023 e R$ 30,5 bilhões em 2025 — mais que quadruplicou em uma década. O número de cotistas contemplados no ano saiu de 71 mil (2015) para 145 mil (2025), e o tíquete médio das cartas de crédito subiu de R$ 136 mil (2017) para quase R$ 210 mil (2025).

Em Curitiba, pequeno mas em alta

Não existe estatística municipal de consórcio — as administradoras não divulgam dado por cidade. Para dimensionar a presença em Curitiba, é possível ratear o volume nacional pela fatia que a cidade ocupa no país: entre 1% (peso populacional) e 1,7% (participação no saldo de crédito imobiliário bancário). Pelo cenário central (1,5%), as cartas de consórcio que compraram imóveis em Curitiba somaram cerca de R$ 282 milhões em 2023, numa banda entre R$ 188 milhões e R$ 320 milhões.

É um valor que ainda representa menos de 2% de tudo que se negocia na cidade. Para efeito de comparação, em 2023 o crédito bancário tradicional concedeu algo em torno de R$ 3,16 bilhões em Curitiba — mais de dez vezes o consórcio. Mas a curva do consórcio é mais inclinada: a estimativa para a cidade saltou de R$ 158 milhões (2022) para R$ 282 milhões (2023) e R$ 457 milhões (2025).

Por que cresce justamente agora

A expansão do consórcio coincide com um período de juros altos. Quando o financiamento bancário fica caro, a ausência de juros do consórcio (que cobra apenas taxa de administração) passa a compensar a desvantagem de não ter o imóvel na hora. O modelo também alcança quem não consegue aprovar crédito imediato — autônomos, informais, quem não tem comprovação de renda formal.

Em 2025, somando crédito bancário e consórcio, os instrumentos formais chegaram a cerca de 17% do volume negociado em Curitiba — sendo aproximadamente 15,5% banco e 1,9% consórcio. Ou seja: mesmo crescendo rápido, o consórcio ainda complementa, e não substitui, o financiamento. A maior parte do mercado segue movida por recursos próprios.

O alerta: carta comprada não é imóvel comprado

Há uma distinção importante nos dados que costuma confundir o consumidor. O volume de "créditos comercializados" — a venda de cotas — é muito maior do que o valor que vira compra de imóvel. Em 2025, foram R$ 283 bilhões em créditos comercializados no país, mas só uma parte disso (o valor disponibilizado aos contemplados) efetivamente comprou imóveis no ano. Cota vendida não significa contemplação imediata: o cotista pode esperar anos até ser sorteado ou dar o maior lance.

Por isso, a leitura honesta do mercado usa o valor contemplado, não o comercializado. E é esse recorte que mostra o consórcio se firmando como uma terceira via real de acesso à moradia em Curitiba — atrás do banco e do dinheiro à vista, mas subindo na fila.


Como estes números foram calculados

Os dados nacionais são da ABAC. O "valor que comprou imóvel" corresponde ao crédito efetivamente disponibilizado aos contemplados no ano (contemplados × tíquete médio), e difere dos "créditos comercializados" (venda de cotas, que ainda não viraram compra). Não há dado municipal de consórcio: a estimativa para Curitiba é um rateio do valor nacional pela fatia da cidade no país, numa banda de 1,0% a 1,7%, com cenário central de 1,5%. Os números de Curitiba são, portanto, estimativas de ordem de grandeza — não medições diretas. O volume total negociado na cidade e o crédito bancário vêm, respectivamente, do ITBI (Prefeitura de Curitiba) e da Estatística Bancária Municipalizada do Banco Central (ESTBAN).

Fontes: ABAC — Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios; Banco Central (ESTBAN); Portal da Transparência da Prefeitura de Curitiba.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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