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Café especial abre novo mercado para agricultora familiar de Londrina

Após anos de trabalho no Assentamento Eli Vive, Daiana Gomes conseguiu nota 88,58 em avaliação do IDR e agora vai comprar torrador profissional com recursos do Pronaf

Café especial abre novo mercado para agricultora familiar de Londrina
Daiana Gomes: capricho em todas as etapas do café. Foto: Filipe Barbosa

Fotos: Filipe Barbosa

A agricultora familiar Daiana Gomes, assentada no Assentamento Eli Vive, em Londrina, acaba de dar um passo importante para transformar um sonho antigo em negócio. Depois de conquistar nota 88,58 no Concurso Café Qualidade Paraná, ela teve aprovado um financiamento de R$ 50 mil pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para comprar um torrador profissional.

O equipamento deve chegar entre setembro e outubro e permitirá que Daiana e o marido, Diego Hecho, ampliem a produção e passem a comercializar café torrado com maior qualidade e valor agregado. Atualmente, ela torra pequenas quantidades de forma artesanal, em casa, e vende para clientes da região.

“É um sonho que eu carrego há muitos anos. Tudo o que a gente construiu aqui foi de uma base muito sólida. Agora a gente vai conseguir melhorar a qualidade da bebida e até da nossa saúde”, afirma a agricultora. 

O café especial exige uma série de cuidados, desde o cultivo até a seleção manual dos grãos. Foto: Felipe Barbosa.

Natural do Ceará, Daiana chegou ao Eli Vive no fim de 2012, quando a área ainda era acampamento. O lote da família foi definido em 2013 e a mudança definitiva ocorreu no ano seguinte. Segundo ela, o terreno onde hoje vivem e produzem praticamente não tinha vegetação. “Tudo que tem aqui dentro foi a gente que plantou e construiu”, conta.

Os primeiros cultivos foram milho e feijão, mas uma seca comprometeu a produção logo no início. Sem muitos recursos, o casal passou a investir em culturas de menor custo, como batata-doce e vassoura. Depois vieram hortaliças, frutas e, em 2016, as primeiras mil mudas de café.

Hoje, a propriedade tem cerca de 6 mil pés plantados, sendo 5 mil em produção. A expectativa é ampliar o cultivo para aproximadamente 8 mil pés nos próximos anos.

Estrutura para secagem do grão no sítio de Daiana. Foto: Filipe Barbosa

A produção é baseada principalmente em café arábica, com variedades que amadurecem em períodos diferentes para facilitar a colheita manual feita pela família. Além do café, o sítio mantém produção diversificada de hortaliças, frutas, inhame, abóbora e outras culturas. “Eu acho que o segredo é diversificar. A gente não pode arriscar tudo em uma coisa só”, explica Daiana.

Café especial

O interesse pelo café especial surgiu aos poucos. No ano passado, Daiana preparou seu primeiro lote voltado para avaliações técnicas. Ela alcançou 88,58 pontos no Concurso Café Qualidade Paraná em uma escala que vai até 100 — bem acima dos 80 pontos exigidos para o produto ser considerado espe cial. Segundo ela, o resultado surpreendeu. “Foi uma nota muito alta. Eu fiquei muito feliz”, diz.

Café especial exige colheita no ponto certo da maturação - Foto: Filipe Barbosa

O café especial exige uma série de cuidados, desde o cultivo até a seleção manual dos grãos. Apenas frutos maduros podem ser colhidos. Depois da secagem e do beneficiamento, os defeitos são retirados manualmente, grão por grão. “É grão por grão mesmo”, explica a produtora.

Atualmente, praticamente toda a produção da propriedade ainda é comercializada como café comum. Em 2025, o casal colheu cerca de 40 sacas beneficiadas, de 60 quilos cada.

Valor agregado

O café de Daiana é o primeiro avaliado como especial em Londrina, cidade que já foi conhecida como Capital Mundial do Café. A agricultora vem recebendo apoio do Armazém Café, empresa londrinense que há 22 anos se dedica a esse tipo de grão e que incluiu o produto da assentada numa edição especial comercializada atualmente.

Depois da colheita, é feita uma rigorosa seleção manual do grão - Foto: Filipe Barbosa

Segundo a agricultora, o café especial pode dobrar o valor de venda em relação ao produto convencional. Enquanto uma saca comum chegou a ser comercializada por cerca de R$ 1,2 mil, um café especial pode alcançar mais de R$ 2,4 mil.

Com o novo torrador, a expectativa é ampliar ainda mais esse valor agregado. O equipamento custará R$ 43,5 mil e terá capacidade para torrar 5 quilos por vez. O projeto financiado pelo Pronaf inclui também a construção de um espaço adequado para a torrefação.

Hoje, Daiana trabalha com um pequeno torrador artesanal a lenha, instalado do lado de fora da casa. Além da dificuldade para controlar a temperatura e padronizar a torra, ela relata problemas de saúde causados pela fumaça. “Quando começou a aumentar a procura, eu vi que precisava melhorar. Em 2024, tive uma tosse muito forte por causa da fumaça”, relata.

O financiamento terá prazo de dez anos para pagamento, com três anos de carência. “Sem o Pronaf, a gente não conseguiria”, afirma a agricultora.

Apoio de quem entende

A mestre de torra e fundadora do Armazém Café, Cristina Rodrigues Maulaz, afirma que a pontuação conquistada por Daiana está entre as mais altas que já viu em mais de duas décadas trabalhando com cafés especiais. Cristina ressalta que o café produzido pela agricultora do Eli Vive representa também um marco para Londrina, cidade que perdeu grande parte de sua força cafeeira após a geada de 1975.

“Sempre quis trabalhar com um café especial de Londrina. Acompanhei o trabalho da Daiana desde o começo e disse para ela que, quando tivesse um café especial, eu compraria”, conta.

O lote produzido por Daiana integrou uma edição limitada lançada pelo Armazém Café em comemoração aos 22 anos da empresa. Batizado de “Legado Fortaleza” — referência à origem cearense da agricultora e à força demonstrada ao longo da trajetória no assentamento —, o café passou a ser vendido em embalagens especiais de 100 gramas. A lata custa R$ 70.

Edição especial do Armazém Café é orgulho para a agricultora. Foto: Filipe Barbosa

Cristina explica que a produção de um café especial depende mais de cuidado e manejo do que de grandes estruturas mecanizadas. Segundo ela, a colheita seletiva dos frutos maduros, a secagem adequada e a seleção manual dos grãos são etapas fundamentais para alcançar alta qualidade na bebida. “O café especial exige muito cuidado. É colher o fruto no ponto certo, evitar fermentação inadequada, fazer uma seleção rigorosa dos grãos. Tudo isso aparece depois na xícara”, afirma.

Para ela, o reconhecimento do café produzido no Eli Vive também reforça o potencial da agricultura familiar na produção de cafés de alta qualidade. “Essa parceria com a Daiana está só começando. É um café de pontuação muito elevada e que mostra a capacidade da agricultura familiar de produzir cafés excepcionais”, diz.

Nelson Bortolin

Nelson Bortolin

Jornalista, um dos fundadores da Rede Lume de Jornalismo, de Londrina

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